sábado, 4 de junho de 2011

Obras Inacabadas



                      Ainda sou inacabado, não sei se dará tempo de me completar...
                    Eu me experimento inacabado, da obra sou apenas o rascunho. Do gesto, o que não termina. Sou como o rio em processo de vir a ser a confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros.  Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo.
               O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afeta com seu poder de vivência, empurra-me para reações inusitadas, tão cheias de sentimentos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.
              Por vezes o cansaço me faz querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros são muitos, as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o coração. È nessa hora que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos, previsíveis, mas quando me enxergo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil.
              Melhor mesmo é continuar na esperança de confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão.
           Eu sou inacabado, por isso preciso continuar...

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